entrelinhas

O sr. Esteves, tipógrafo, recebeu para imprimir o discurso do notável, soma de palavras vazias de significado ou valor prático, que nem sequer permitiam suspeitar da presença de algo implícito, oculto ou subentendido. ‘Esta merda não tem impressão possível’, disse o Esteves que, mesmo assim, ainda tentou a coisa. Nada havia a fazer, porque a tinta não se agarrava a palavras ocas e o nosso homem desistiu. No dia seguinte, por ‘razões técnicas’, a notícia do jornal vinha em branco. Os leitores ficaram sem leitura e os comentadores sem comentário. Não havendo linhas para criticar, desnecessário se tornou o trabalho de ler nas entrelinhas. O sr. Esteves era um raro mestre em matéria de ‘leitura’.

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