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caixa

Quando um número incalculável de empregos está ligado à ‘caixa’ do super ou hipermercado, a importância da mesma é indiscutível. Nas ‘caixas’ trabalham bacharéis, licenciados, mestrandos e doutorados, cuja formação lhes permite manusear melhor as máquinas registadoras, aplicar com rigor o acordo ortográfico e modernas ‘regras de educação’. Por outro lado, a ‘caixa’ é um dos locais onde se consagra a passagem do sonho à posse efectiva, intelectualizada por frases do género ‘quer o número de contribuinte na facturinha das batatas ?’ As ‘caixas’ (aos milhares ) são uma das faces visíveis dos tão badalados ‘progresso’ e ‘desenvolvimento’! Assim, vai-se longe…

dores de cabeça (texto de ontem)

Ezequiel da Mata Florida, após anos de ingentes trabalhos investigativos, tropeçou na nomeação do júri de doutoramento. Este foi abaixo por o presidente da Comissão Científica da sua faculdade, que usa o inglês técnico como instrumento de comunicação verbal, o ter considerado manel (um panel exclusivamente masculino) e wanel (um panel exclusivamente branco). Isto do ‘género’ interferir com o ‘ Estudo aprofundado de um caso improcedente na óptica do utilizador ’, tese do Mata Florida, tem que se lhe diga, mas os membros do júri, temendo o presidente da Comissão Científica, nem protestaram. Mata Florida ficou em estado de burnout que, infelizmente, não conta para o doutoramento.

olhar como boi para palácio

Em Portugal estão reconhecidas quinze raças autóctones de bovinos - alentejana, algarvia, arouquesa, barrosã, brava de lide, cachena, garvonesa, jarmelista, marinhoa, maronesa, mertolenga, minhota, mirandesa, preta e ramo grande -, o que levou a Presidência da República a solicitar à Academia das Ciências um estudo tendente a determinar se todas olham para o palácio de Belém do mesmo modo. De acordo com os primeiros resultados, apesar dos bois portugueses serem todos lusitanos, o facto é que veem diferente, daí que a expressão ‘ olhar como boi para palácio ’ não possa ser objecto de generalização. Há, pois, bois e bois e, estes últimos, constituem um grupo muito numeroso.

up to date

Fatinho preto, gravatinha preta, fumo preto, viaturas ou carroções pretos… o preto entre nós sempre se associou a funerais e ao luto inerente. Mas i sto de estar de preto é coisa que tende a acabar. No funeral da tia Comenda, a Alzirinha foi de top, a Vanessa de mini-saia, o Bernardo trajava jeans rotos e ténis fosforescentes e o Miguel foi à pai Adão, mas ninguém deu por nada. A Alzirinha e a Vanessa fartaram-se de chorar, mas rasto das lágrimas… nem vê-las! Ambas usaram kits de lágrimas ( Shlot und Fenuson e Diego de la Huerta ), que acabam com aquelas cascatas de preto face abaixo que comprometem as choronas e desfeiam a sua presença em qualquer funeral.

calçada à portuguesa

Os ministérios da Educação e da Saúde pretendem pavimentar o cérebro dos portugueses com calçada à portuguesa. Já existem muitos cérebros empedernidos em Portugal, mas trata-se de empedrar os demais com calçada a preto e branco, granito branco alternando com basalto negro de modo a alegrar a vidinha. Os mais novos serão calcetados à nascença, facto que permite fechar o ministério da Educação, dado que mente calcetada é mente já preparada para enfrentar a dureza da existência. Quanto ao ministério da Saúde, pois bem, as urgências para desempredados passam para as Serras d’Aire e Candeeiros, que já possuem dezenas de postos de atendimento, vulgo ‘pedreiras’.

toponimia

Apagam o nome do ditador e ficam de consciência sossegada convencidos que um certo passado, expresso através de um nome, desaparece com uma simples apagadela. Ora as praças, largos, avenidas, ruas, travessas, becos… seguem impávidos e serenos face aos problemas de consciência dos seus utentes. A mudança da toponímia não apaga o ‘antigamente’ nem leva à descoberta de um admirável mundo novo. A ‘ Rua Projectada F à praceta 4’ em Cebolais do Meio (identifica o local há 55 anos) reflecte bem a situação. O presidente da junta já pensou nomeá-la ‘Praceta da Prostituição’ , ‘ Beco das Drogas’ , ‘ Cantinho dos Affaires’ … mas a coisa não vingou. Ficou ‘ Projectada ’, coitada!

women’s secrets

Júlio Prazeres da Cunha muda de cuecas uma vez por semana, declarando que umas cuecas que se afeiçoam às partes geram um apego traduzido na manutenção do seu posto de trabalho durante o maior tempo possível. Mas há limites. Quando as cuecas começaram a estar fatigadas, Júlio entendeu ter chegado o momento da sua substituição. A conselho da mulher foi ao Interiores de Charme . Hesitando em comprar novas cuecas (gostava mesmo das velhinhas), resolveu-se quando a empregada lhe disse ‘olhe, a roupa interior é como os governos… de vez em quando é preciso mudá-la! ’. Prazeres da Cunha não suspeitava que a menina da loja se incomodasse com ‘política’. Women’s secrets !