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canseira

O cansaço apoderou-se de Marília Pote. Não, não era o trabalho, não eram as deslocações, não era o facto de ganhar mal, não era o já não suportar marido e filhos, não era a vitória do partido oposto ao seu, não era a derrota do seu clube na última jornada da Liga, não era o estar gorda em vez de estar magra, não era nada disso. O que a cansava era ter de respirar continuamente, ter de abrir a boca para comer, usar sempre os mesmos pés, ter de dormir por não poder estar sempre acordada, passar a vida a defecar e urinar, abrir e fechar os olhos continuamente, o coração estar sempre a bater… ‘Puxa, desabafa Marília, não podiam simplificar tudo isto... há simplex para tudo e mais alguma coisa… ’

torradas

A senhora condessa d’Ô ordenou ao mordomo, Sebásio, que lhe fizesse umas torradas na lareira grande da Casa do Pontal. Sebásio assim fez, mas, com tal azar, que caiu na lareira ficando reduzido a pó. A condessa lamentou o sucedido, acrescentando: ‘o pior foi terem-se queimado as torradas! ’ Quando a cozinheira caiu numa enorme frigideira, a condessa lamentou o sucedido, acrescentando: ‘o pior foi a gordura que caiu na tijoleira que datava do séc. XVIII!’ . O jardineiro cortou acidentalmente a cabeça e a condessa lamentou-se: ‘o pior foi o sangue que tingiu a sebe!’. Quando a condessa se afogou no lago, o mordomo de serviço lamentou o sucedido, não sem ter acrescentado: ‘o lago ficou nobilitado! ’

conquistas horárias

Aos sete dias de trabalho do pobre campónio seguiram-se os seis dias da ‘semana inglesa’, a que se sucederam os cinco dias das ‘conquistas trabalhadoras’ e a que se hão-de seguir os quatro dias das ‘conquistas informáticas’ e do ‘trabalho não presencial’, os três dias do ‘ stop over ’ por falta de matérias primas, os dois dias por bancarrota da empresa até se chegar ao ‘por um dia não vale a pena abrir a oficina’ . Bem, face às voltas que o assunto está a dar, Eugénio Cabinda já começa a pensar que chegará o dia em que dirá ‘ estou farto de não fazer nenhum, quero trabalhar pelo menos um dia! ’ Este seu futuro desejo deverá ser classificado como regresso à ‘normalidade’, ou mais uma ‘anormalidade’?

cemitérios (o texto de ontem)

Ao Portugal que vive sobre o solo acrescenta-se o que vive eternamente no subsolo, caso não tenha emigrado para local desconhecido da Via Láctea. Mas como se já não bastasse o debate sobre a falta de espaço nos cemitérios e a poluição que nos mesmos se origina eis que a coisa se complicou desde que se descobriu existir um filão de lítio no cemitério de Ruelas Velhas. ‘Mas o meu António está agora com o lítio?’ , interroga-se Cacilda. Caso explorem o sub-solo do cemitério, o defunto marido ainda acaba em bateria de automóvel. Entretanto, sobressaltada com o caso, Cacilda já anda a Plenur, dado que o carbonato de lítio previne, entre outras coisas, perturbações do humor!

lei seca

Baixar a bola + encher chouriços + não fazer ondas + não meter o bedelho + com a tropa não se brinca + a antiguidade é um posto + ordens só por escrito + deixem-se de ideias, vão trabalhar + não meter o nariz onde não se é chamado + cada um no seu canto + quem sabe, sabe + manda quem pode, obedece quem deve + não meter a foice em seara alheia + não se intrometer… Enfim, Jorge de Sena já sentia todo o peso do problema: “Eu não sei se há país na Europa, em que a criatura, que sobre o seu destino e o dos outros ousa meditar, sofra tão miseravelmente a angústia de pregar no deserto (quando prega) ou a de sentir que os outros falam outra língua (quando se cala e os ouve).”

coisas

O bacalhau trocou a Terra Nova pela Noruega e tal facto, por romper com tradição bem estabelecida, preocupa Célia Pinheiro. Mas há mais: as alfaces crescem na horta de Múrcia, as carnes são congeladas ainda quase vivinhas na Argentina, as massas comestíveis dão ares de vir de Itália e as uvas são do Chile e vêm sem casca. Por detrás de tudo isto anda a ‘globalização’. Célia não se entusiasma com o ‘económico’ da coisa, mas privilegia certos traços comuns da mistela em que se vive: sentada à mesa, arrota como os somalis da Somália e, traseiro bem assente no tampo da sanita, defeca no seu Tremoiço Novo como se defeca em Mogadíscio! São estas semelhanças que ainda a fazem ter fé na ‘humanidade’.

sociabilidades

No relato da reunião, o cronista social não esqueceu um disparatado que se comprazia em asneirar, uma embaraçada que corava enquanto conversava com um seu pretendente, uma mulher e um homem em interacção eufórica, uma rapariga que educadamente fugia do olhar dos demais, um senhor que para evitar temas quentes discorria sobre ‘la pluie et le beau temps’ , um tipo que por lhe faltar um botão do casaco se sentia estigmatizado pelos demais, um atrevido que se encostava a uma dama e mais uns quantos a representar outros papéis. Todos os citados pertenciam à nomenclatura cá do burgo. Faltou identificar uma não-pessoa: o anónimo empregado que servia os drinks .