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vidinha

José Almagro vive como de costume, mantendo a rotina diária mesmo quando enfrenta dificuldades ou lhe cheira a mudança. ‘- Então como vai? - Normal, seguro, tranquilo… ’ responde. A sua vida pacata, o equivalente ao ‘metro, boulot, dodo’ gaulês, tresanda a apatia, apenas abraçando a ‘odisseia’ na TV ou nos relatos futebolísticos. O ‘levar Portugal a viver habitualmente’, fórmula proferida pelo mago de Santa Comba em 1938, mantém toda a sua actualidade, de tal modo que o governo já nomeou a comissão para as comemorações, em 2038, do Dia Nacional da Habitualidade, um dos ingredientes maiores da defesa da ‘ordem estabelecida’.  ‘- Pois, José Almagro, passe bem… continuação!’

dentes de mentiroso

‘- Sr. Prof. Dr. Emérito Cárie, os dentes mentem? - Pois mentem… já verifiquei que os pré-molares e molares, por mais escondidos, mentem muito… dos sisos nem se fala… mentem de forma descarada… incisivos e caninos têm mais cuidado no que dizem… estão mais à vista e dá-se logo pela mentira. - Mas por onde sai a mentira… sai do dente? - A mentira origina-se no dente, mas sai da boca pelos diastemas… o espaço entre os dentes… muito ajudada pela língua, por isso se diz dar com a língua nos dentes. - Sr. Professor, posso mentir com quantos dentes tenho? - Caso não estejam cariados pode… dente com cárie gagueja… não dá para mentir… dá-se logo pela mentira.’

peões

O cidadão comum figura neste mundo a título folclórico, respondendo apenas a questões difíceis: então como se organizam em casa? Quem estende a roupa? Como se servem da internet? … Aquilo que se pede ao comum dos mortais é que fiquem calados, ‘porque nós (eles) estamos a tratar da coisa’, ‘deixem-nos explicar como é’, ‘não atrapalhem! ’ Ora os Zé-ninguém, não têm direito à palavra e presumem-se ignorantes, figurando apenas no capítulo ‘cenas pitorescas’ deste mundo. No tabuleiro da vida, glória ao Rei e à Rainha, aos Bispos, às Torres e aos Cavalos! Os peões, sejam brancos ou pretos ou vice-versa, apenas servem para ser comidos.

corrigir

Cada vez que Elsa abria a boca, a mãe corrigia-a. Imobilizada numa rua, Elsa exclamou: ‘ó mãe, é um engarrafamento de trânsito! ’ Atenta ao uso da língua, a maternidade logo a  corrigiu: ‘não, filha, é um estrangulamento de tráfego!’ Mais tarde, apossou-se de Elsa enorme vontade de defecar, traduzida na produção de um quase imperceptível pum dentro do carro. Elsa hesitava se haveria de dizer ‘foi um simples eflúvio, uma exalação intestina, um miasma interno, uma fragrância diversa ou uma emanação gasosa fruto do labor estomacal’. Curioso, o quase inaudível trac de Elsa ter-se-ia originado num engarrafamento ou num estrangulamento nos intestinos?

Hiroshima, mon amour

O tenente-coronel piloto aviador Ildefonso Manta Rota, reduzido a insípidos voos de observação no decorrer da guerra colonial, sonhava com a arma nuclear e, sobretudo quando já bebido, proclamava alto e bom som na messe de oficiais que ‘isto por aqui, resolvia-se com uma bomba atómica! ’ Graças sobretudo à escassez de meios e não propriamente ao raciocínio, tal não foi possível. O Manta Rota acabou reformado, sem ver materializado o seu desejo maior. Hoje, num apartamento próximo de Sintra, ainda se excita ao sonhar com engenhos nucleares, não havendo semana em que a mulher-a-dias não tenha de lhe mudar os lençóis conspurcados por disparo orgasmático nocturno de ‘origem nuclear’.

saúde pública

A Direcção Geral dos Animais Irracionais determinou que a partir do próximo ano qualquer migrante - ovino ou caprino, bovino, porco ou ave de capoeira - destinado a ser abatido no país, deverá dar entrada no mesmo na situação de vivo e possuindo certificado passado pelo consulado de Portugal no país de que é oriundo, de que sabe balir, mugir, grunhir e cacarejar em português, sendo posteriormente morto num matadouro certificado. Os que não cumprirem as duas condições acima expostas só poderão dar entrada no país na modalidade de ‘congelados’, não carecendo portanto de demonstrar que estão vivos e estando dispensados de apresentar o certificado de fala.

linguagem neutra universal

Benedita Amorim interroga-se sobre o que se passa com a língua pátria, dado que o habitual masculino/feminino a que estava habituada e que até lhe facilitava muito as coisas, está posto em causa. A mudança vai de elu   em vez de ela/ele até menina ou menino serem agora menine .   Recebida em casa de um amigo (na realidade amigue ), praticante da linguagem neutra universal, Luísa foi acolhida com um ‘- Bem-vindes! Não quer ume banane?’ A coisa, atendendo aos tempos que correm e às confusões linguísticas que originam, deu para o torto, acabando Luísa por apresentar uma queixa contra o amável done da casa, acusando-o de assédio sexual. Enfim…