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mero acaso

‘Por mero acaso encontrei o dr. Esteves do 1.º dto. Olhe, por mero acaso cruzei-me com a Sanchinha do 3.º esq. Coisa com graça, por mero acaso vi o cão da D. Ivone do r/c.’ Rafaela Circunstância encontrava toda a gente por mero acaso, facto que levantava as mais sérias dúvidas a Deolinda Silva, a porteira do prédio. Na realidade, todos se encontravam por mero acaso na portaria, no elevador ou na escada. Por mero acaso , claro está, porque por mero acaso moravam todos no mesmo prédio e, por mero acaso também, se cruzavam e descruzavam diariamente. Por mero acaso , repita-se, sem perceberem bem porquê. Isto de vizinhos do mesmo prédio tem que se lhe diga.

cinto de segurança

O espírito securitário atingiu-o de tal forma, que David Martelo decidiu instalar cintos de segurança na cama de casal. A sua mulher, Deolinda, a princípio reticente, lá se conformou. Há dias sobreveio a tragédia. Enquanto dormiam de janela aberta, um golpe de vento fez levantar voo o pesado edredão de inverno que os cobria que, ao aterrar de novo sobre eles, esmagou a traqueia do Martelo e impediu os pulmões da Deolinda de exercerem a sua função. Presos aos cintos de segurança nem tiveram tempo de reagir. A BT registou o óbito e um reboque da firma Auto Pereira conduziu-os à morgue mais próxima, onde talvez ainda pudessem ser vendidos como salvados.     

carapau e baleia

Consoante o dia da semana e o estado da sua carne, gordura, volume e peso, Alfredo Consistência passa por descarnado, escanzelado, delgado, enxuto, esquelético, mirrado, estreito, fino, franzino ou magricela. Já Deolinda Inconstância, consoante o dia do mês e o estado das suas carnes, passa por forte, cheia, obesa, pesada, encorpada, robusta, nutrida, barriguda, anafada, roliça, corpulenta ou avantajada. Resumindo: em dia de praia ele é tido por carapau e ela por baleia e como esta última tende a engolir o carapau, muitos comentam ‘ ele que não se ponha a pau! ’. O que tem graça é que o Alfredo faz olhinhos à Deolinda, mas esta ainda não o comeu.

Coa

A Direcção Geral dos Acontecimentos Marcantes (DGAM) lançou um concurso inter-escolar de pintura rupestre no vale do Coa que, para tal, foi dividido em tantos sectores quantas as delegações escolares. Chegada a hora, os alunos lançaram mãos à obra, solidamente enquadrados por professores de artes visuais. Ao fim de quinze dias, Portugal orgulhava-se de possuir o mais vasto conjunto de pinturas rupestres do mundo, uns bons cinquenta quilómetros de arte parietal. Não havia pedragulho esquecido, neles proliferando vacas e bois, dinossaurios de todos os calibres e obviamente toda a simbologia rupestre da nossa gente, desde belíssimos pares de cornos a condimentadas representações das partes.

bicha (o texto de ontem)

Nada de mais normal no quotidiano do que estar numa bicha. Está-se na bicha da farmácia, na bicha do hospital, na bicha das finanças, na bicha do cinema, na bicha do teatro, na bicha do concerto, na bicha do museu, na bicha do supermercado, na bicha do autocarro, do avião ou do comboio, na bicha das eleições… Há bichas para ir e vir, para partir ou chegar, para entrar e saír ou para comprar ou vender. E à bicha propriamente dita acrescenta-se nova forma de bicha, a bicha telefónica musicada, em que a bicha se disfarça para não dar tanto nas vistas. Ora, atendendo ao carácter omnipresente da bicha, o professor Tenório Barriga concluiu ser a bicha o local ideal para discutir o sentido da existência.

vazio

Monárquico ferrenho, assentava o seu pensamento no rei, na pátria, na terra e na religião. Mas o rei foi-se em 1910, a pátria fez-se sub-secção da UE, a terra cultiva agora painéis solares + estufas com primores para a exportação e a igreja fechou desde que o senhor prior casou com uma moldava, por sinal, ortodoxa. Por força das contas da vida, móveis, quadros, pratas, jóias, mais um sem fim de relíquias vindas de tempos imemoriais, fizeram o trajecto até o Sotheby’s local. Havia ainda o solar, mas o casarão, sítio de muita história, já está à venda por €4M e até se diz que ficava bem em ‘turismo rural’. Ao nosso homem, resta-lhe o nome, que, segundo consta, muito em breve vai a leilão no ebay .      

praia

Em Pedrouços, sentada em escasso areal e tendo por mar um rio que nem sequer chegou à foz, Henriqueta Duarte reflecte sobre os seus desejos. Em que ficamos? Associar um desejo a uma praia só se fôr por aquelas praias inatingíveis que Henriqueta conhece dos anúncios da TV. Mas se um desejo cabe e se esgota num anúncio, então Henriqueta vai penar muito até entrar no imaginário do celulóide. A ideia de que a ‘praia’ é sinónimo de modelo definitivo da ‘felicidade’ pesa na mente do lusitano comum, preso a esse cansativo malentendido que consiste em associar sol, areia e oceano ao paraíso. No Verão, num quarto alugado em Quarteira, Henriqueta talvez reflicta sobre esta questão.